Beth Brait Alvim
(SP, Brasil, 1952). Poesia: Mitos e ritos, Scortecci Ed, SP,
1987; Mulheres de São José, prefácio de Celso de Alencar,
Scortecci Ed, SP, 2ª ed, 1993; Mulheres de São José – outros
poemas, SP, 1996. Revista “Fata Morgana” No. 2., Colômbia, 2006.
III Prêmio Literário Asabeça, Scortecci Ed, SP, 2004; São Paulo
em versos femininos,SP, 2004.Conto: Erótica, Ed. Brasiliense,
SP, 1993. Organizou: Tempos Perplexos, Diadema, prefácio de
Cláudio Willer, 2002; Tempos & territórios, Diadema, 2005.
Ensaio: Ciranda dos tempos – espaços do desejo, prefácio de
Teixeira Coelho, Escrituras Ed., SP, 2005. Prêmio Governo do
Estado de São Paulo: Visões do Medo, Escrituras Ed, 2006 poemas.
É assessora de literatura da Prefeitura de Santo André e
coordena a Escola Livre de Literatura.

rasgo caixas carcomidas pelo veneno de Cronenberg
gavetas vazias por deformações e restos de arcadas postiças
e não te vejo
perscruto nos rodapés empoeirados o cheiro das tuas unhas
quebradiças e
mal polidas iluminadas com o mais barato esmalte
e não te sinto
lambuzo as dobradiças dos armários abandonados e elas chiam duras
duras e nada abrem e se se abrem
é para o nada
arranho o eco incessante da tua voz adentrando nas minhas axilas
e ouço meus demônios todos sussurrarem
que te reclame
torço os punhos debaixo do travesseiro
e sugo o vento que te fazia tossir e esmurrar
o fim de tudo
inundo meu ser vazio do ar que te animava
e me desespero a cada black out noticiado
sem nenhuma saída
alço varais que esvoaçam desnudos
e zumbem loucos nas noites natalinas
ou noutras quaisquer
enquanto a tigresa assassinada é sinal de que o céu vai despencar
de um lírico e feroz anti-happy-end holywoodiano
e de que ninguém mais está no cio
eu burilo minhas entranhas com todos os méis
urro meu útero seco babando o bafo quente dos dragões em pânico
um olhar sereno
disseram
opaco
eu diria
um véu entre o meu ser vivo
e a finitude
o sufoco de não me reter mais entre os
extremos
dedo e alma
